
"Este ano, a Ordem dos Advogados "vai actuar" para reduzir o acesso à profissão. O bastonário argumenta com a salvaguarda da qualidade da advocacia, mas propõe alternativas para os licenciados em Direito excluídos.
"A Ordem vai actuar e, ou resolve o problema à entrada, com o Governo e a Agência de Validação e Creditação dos Cursos Superiores (AVCCS) a intervirem, ou vai resolver no final, com a escolha dos melhores", declarou esta quinta-feira António Marinho Pinto ao "Jornal de Notícias". (...)
Em Portugal, há mais de 26 mil advogados a exercer, quando "menos de metade - uns 12 mil bastariam - seria suficiente para assegurar com qualidade e dignidade a prestação do serviço de elevadíssima relevância social que cabe aos advogados", sustenta, recordando o "ratio" terceiromundista" do país, "com um advogado por 350 habitantes, quando a Finlândia tem um por seis mil ou a França tem um por 1800".
A solução, sustenta, passa por diminuir o número de cursos (há três dezenas) e de alunos, matérias em que deve intervir a agência de creditação. Mas também pela reforma do próprio Regulamento dos Estágios. O "actual coloca a Ordem a ensinar Direito - além de criar vícios, pois ganha muito dinheiro com ela, entre 1,6 a dois milhões de euros - quando lhe cabe dar conhecimentos nas práticas forenses e na deontologia", explica. (...)
Argumentando ser legítimo à OA regular o acesso à profissão, Marinho Pinto insiste que, com um "número infinitamente superior às necessidades há risco de degradar a qualidade do seu exercício, que é o que já está a acontecer", pelo que "não pode titular mais do que um certo número de novos advogados por ano". Números, não propõe, pois é necessário discutir e articular com o Governo e a AVCCS - não só a certificação dos cursos, mas também as saídas profissionais alternativas.
Trata-se de abrir o leque das profissões jurídicas, passando a exigir-se a habilitação com licenciatura em Direito a pessoas que hoje executam procedimentos que exigem conhecimentos jurídicos por vezes exigentes - de funcionários judiciais às empresas, passando por conservatórias, cartórios e órgãos da administração (central e local)."
(
Jornal de Notícias)
Tal como aqui escrevi em Julho último, aquando de uma entrevista do Bastonário em que falou do assunto, deve efectivamente criar-se um mecanismo no acesso ao estágio da Ordem (obrigatório para o exercício da profissão) que pode (e deve, na minha opinião) passar por um "exame de acesso". Criar um número fixo de vagas é inconstitucional, pelo que a limitação nunca pode ser quantitativa, como parece dar a entender o Dr. Marinho Pinto ("não pode titular mais do que um certo número de novos advogados por ano").
Porém, concordo que as alterações ao acesso à profissão deverão ser realizadas ainda nas faculdades, nos cursos de Direito, que actualmente ainda permanecem desajustados e é manifestamente exagerado o número de licenciaturas em Direito (trinta). As alterações deverão ser operadas aí e não mais tarde, já no acesso à profissão.
Não posso deixar, ainda, de concordar com a proposta do Bastonário para tornar obrigatório em certos cargos públicos ou privados ter a licenciatura em Direito, já que muitas profissões exigem conhecimentos jurídicos, apesar de restringir o acesso de profissionais com formação em outras áreas, que se vêem relegados dessas opções profissionais.