terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Debate na Sic Notícias

Acompanho o debate sobre o referendo na Sic Notícias e fico estupefacto com alguns argumentos...
Aguiar Branco (já ontem esteve no "Prós e Contra" da RTP e engasgou-se com a pergunta de Vasco Rato sobre a aprovação da pergunta no Parlamento) disse que se a pergunta fosse "concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez?" votaria "sim". Ora, se o Dr. Aguiar Branco diz que é favor da despenalização e contra a liberalização, então porque vota "não" na proposta de despenalização e votaria "sim" na liberalização? Porque vejamos: a pergunta que vai a referendo é propor a despenalização em determinados casos, com requisitos (até às 10 semanas, em estabelecimento de saúde autorizado e a pedido da mulher), enquanto a outra não tem quaisquer requisitos, abrange todos os casos, apenas pergunta se concorda com a interrupção, sem limitar os casos, em todos os casos.
Haja coerência e honestidade.
Outro argumento é que às 10 semanas há vida...
Ora, que eu saiba (não sou médico) uma pessoa que está em estado de "morte cerebral" (o cérebro já não funciona mas o resto do corpo sim, nomeadamente o coração) é considerada como estando medicamente morta. Isto é, sem o cérebro a funcionar não há vida. Acontece que, pelo que ouvi dos médicos, às 10 semanas o feto ainda não tem o cérebro a funcionar (nem o sistema nervoso), ou seja, não se pode considerar como havendo ainda vida. Ora se no primeiro caso não existe vida, no segundo também não, pela mesma razão. Haja rigor. E acrecento: logo após o acto sexual, pode haver fecundação. Nasce uma célula, há desde logo "vida". Também são contra a pílula? É porque a pilula o que faz é, basicamente, matar essa célula. Aliás, é precisamente por isto que a Igreja Católica se opôe ao uso da pílula...
Matilde Sousa Franco disse que "faltam um milhão de crianças em Portugal" e que "faz falta gente para trabalhar e pagar as reformas". Incrível! Onde isto chegou... Não acredito que esta seja a mentalidade da maioria dos portugueses, no século XXI. Como disse e bem Rui Rio, Matilde Sousa Franco deve ser a favor do aborto na China e na Índia, para controlar a natalidade... Disse também que há 4 mil anos o aborto era punido. Ora já que vai buscar "pensamentos antigos", vou buscar outro: há 50 anos atrás, era proibido as mulheres votarem, pois eram consideradas seres menores. Felizmente a moral mudou neste caso. Espero que também mude na despenalização da interrupção da gravidez, acompanhando a moral dos países mais desenvolvidos e evoluídos do mundo.

4 comentários:

Ricardo S disse...

João Miranda, no Blasfémias:

"Muito interessante a confusão que se gerou à volta do termo "vida humana". É óbvio que o feto é uma "vida humana". Está inegavelmente vivo e é humano. Claro que o NÃO aproveitou o tabu que existe em relação à destruição da vida humana para fazer campanha. O mesmo tabu que habitualmente justifica a rejeição da pena de morte em todas as circunstâncias. O SIM tende, demasiadas vezes, a responder da pior forma possível a esta táctica alegando que o feto não é vida humana. Confunde-se aqui "vida humana" com "cidadão". "Vida humana" é uma categoria biológica, "cidadão" é uma categoria política. O que está em questão neste referendo não é se o feto é "vida humana" mas sim se toda a "vida humana" merece o estatuto de "cidadão", ou pelo menos um estatuto parcial de cidadão. E mesmo que se considere que toda a vida humana deve merecer o estatuto de cidadão falta decidir se se justifica ou se adianta para alguma coisa proteger todo o cidadão em qualquer circunstância através do direito penal."

Ricardo S disse...

Eduardo Pitta, no "Da Literatura":

"Tinha-me decidido pela abstenção, tal como em 98. Não gosto de referendos e ainda menos deste. O aborto é um daqueles assuntos que não pode ficar à mercê de emoções manipuláveis. Não vale a pena recuar aos ominosos anos Guterres. Toda a gente conhece a história. Continuo a achar que o referendo do próximo dia 11 vai deixar quase tudo na mesma. Mas dois dias seguidos a ouvir os argumentos do NÃO que tem lugar cativo nos debates, têm consequências. Até sou capaz de admitir que haja argumentos e gente sensata desse lado, mas o que se ouve nas televisões é um susto. As prestações de ontem, na SIC Notícias, da viúva de Sousa Franco e de José Pedro Aguiar-Branco, raiaram a desfaçatez. Assim sendo, vou votar. SIM, naturalmente."

Ricardo S disse...

Pedro Santos Cardoso, no "Dolo Eventual":

"D. José Policarpo vocifera que a educação sexual "é bem-vinda e necessária", mas para ser "verdadeira" tem de ser feita na "perspectiva da castidade".

Traduzindo: a educação sexual é importante para transmitir a mensagem de que o uso do preservativo é mau porque o uso do preservativo é mau. É importante para transmitir a mensagem de que não fazer sexo frequentemente é bom porque é responsável porque é e de que devemos ter sempre em mente fins reprodutivos porque sim.

Vai resultar vai."

Ricardo S disse...

João Miranda, no "Blasfémias":

"Felizmente esta campanha está a contribuir para descredibilizar o argumento demográfico. Habitualmente a demografia serve para justificar a transferência de rendimento dos estéreis para os não estéreis ou daqueles que não estão em idade fértil para os que estão em idade fértil. Tudo para compensar os efeitos negativos do estado social na natalidade e para salvar a Segurança Social. Não funciona, mas é politicamente popular. Só que no caso do aborto o argumento demográfico não pega. Quase toda a gente percebe proibir o aborto para salvar a Segurança Social ou para aumentar o número dos membros da Nação é um absurdo. É até ridículo que gente que pretende realçar a individualidade do feto procure ao mesmo tempo justificar a proibição do aborto alegando o feto precisa de ser usado como instrumento para salvar a colectividade. Não se consegue imaginar nada mais totalitário e desumano. Espero por isso que os defensores do NÃO continuem a gastar e a descredibilizar o argumento demográfico. É um favor que prestam à sociedade."