sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Novos tempos ou velhos hábitos?

"No passado dia 10, a Dra. Elina Fraga tomou posse como Bastonária da Ordem dos Advogados, sucedendo ao Dr. Marinho Pinto, que a apoiava. A nova Bastonária era, aliás, o braço direito daquele nos seis anos de mandato que agora terminaram. Não sendo o resultado eleitoral propriamente uma surpresa quando ao vencedor, já é, pelo menos para mim, uma surpresa a diferença de votos para o segundo candidato mais votado, o Dr. Guilherme Figueiredo. Aliás, o terceiro e o quarto mais votados ficaram a muitos poucos votos do segundo, o que demonstra que o número anormalmente elevado de candidatos (incialmente sete, tendo depois passado a seis) levaria invariavelmente a uma distribuição de votos. Mesmo assim, a nova Bastonária teve uma percentagem relativamente alta, bem mais alta do que o esperado, e uma diferença considerável para o segundo candidato mais votado, apesar do número elevado de candidaturas. Isto significa que a sua vitória é inconstestável. Apesar de ter votado noutra candidatura e noutras listas para os restantes órgãos da Ordem, não apoiadas pela candidatura da Dra. Elina Fraga, não tenho quaisquer problemas em considerar que o resultado não merece contestação, pelo que deve ser respeitado por todos.
 
A pergunta que se coloca agora é se o mandato que agora começou será uma continuação da “política” do Dr. Marinho Pinto ou se a nova Bastonária irá alterar alguma coisa na forma como é exercido o cargo mais alto da Ordem. As primeiras entrevistas da Dra. Elina Fraga parecem dar a entender que pouco mudará quanto ao conteúdo, mas que, ao mesmo tempo, poderá haver uma nova forma e uma nova imagem. Uma das maiores críticas que se fizeram e se fazem ao Dr. Marinho Pinto é os excessos na linguagem, os termos que utilizava, a forma como dizia as coisas. Foi acusado, com inteira justiça diga-se, de se comportar como uma elefante numa loja de porcelanas, não respeitando os limites da prudência e da contenção. Para além de outros, tinha o grande mérito de apontar o dedo ao que estava ou está mal na Justiça, sem problemas de chamar os nomes aos bois, o que o levou a duas vitórias incontestáveis. Mas tinha esse enorme defeito, que era não saber quando se deveria remeter ao silêncio ou conhecer as fronteiras da linguagem.
Acusava os juízes dos seus erros, mas tinha o problema de generalizar, quando todos sabemos que nem todos os magistrados, juízes ou procuradores, são maus (felizmente) nem todos cometem erros crassos como alguns casos vindos a público. Este abuso verbal levou a um sentimento de antagonismo entre advogados e magistrados, o que prejudicou, a meu ver, a realização da Justiça. Há muito que digo que estamos todos ali (no Tribunal, nos processos, nas salas de audiência, etc) para o mesmo. Para fazer Justiça. E todos somos essenciais para que ela chegue a bom porto e a um resultado justo e adequado.
 
Não quero, com isto, insinuar que a culpa de, por exemplo, um juíz mandar um advogado ir “queixar-se ao Totta” seja culpa das infelizes palavras do Dr. Marinho Pinto. Não é. Há juízes que não o deveriam ser. Nem toda a gente tem jeito para a profissão que exerce. E escrevo isto para todas as profissões, obviamente. Mas eu notei, nos últimos anos, uma degradação na relação entre magistrados a advogados, causada, entre outros factores, também por esta postura de generalizar casos concretos. E esta degradação leva a uma pior Justiça, quando o objectivo é e deverá ser sempre melhorá-la e aperfeiçoá-la. Num período conturbado da nossa História, no meio de uma gravíssima crise social e económica, a Justiça é o último reduto da Democracia e do bem estar social. Assistimos a um ataque fortíssimo ao Estado de Direito e à própria Democracia, através de uma guerra política e financeira contra os mais básicos princípios democráticos do Mundo, como a igualdade, sendo neste momento o Tribunal Constitucional o último bastião da Democracia e não podemos ceder perante esta insegurança minando a Justiça e a relação entre os seus agentes, entre magistrados e advogados, entre procuradores e agentes policiais, entre funcionários e advogados, etc. Os tempos são demasiado difíceis para que os egos se sobreponham ao interesse colectivo e do País.
 
Espero, assim, que a Dra. Elina Fraga seja diferente do seu antecessor e que, tal como a própria já disse numa entrevista a um jornal, leve à prática a sua ideia de melhorar a comunicação e a relação da Ordem e dos advogados com os restantes operadores judiciais, sobretudo magistrados, que tão prejudicada foi nos últimos anos. Para bem dos advogados, para bem de todos nós."

(publicado no Local)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os mortos valem mais do que os vivos

"Agora está toda a gente a chorar pelo Eusébio, mas uma equipa de artistas e empreendedores andou anos a querer montar um espectáculo de teatro multimédia para contar a história de Eusébio e não encontrou vontades suficientes para criar as condições para tal. Como diz o Carlos Fragateiro, talvez agora se consiga, porque os portugueses gostam mesmo é de mortos.

Isto diz muito sobre nós, sobre o que somos colectivamente - e sobre a mascarada mediática em que se transformou parte da nossa vida pública. Parece que tendemos a achar lindíssimas as celebrações dos mortos, tanto quanto tendemos a não ligar peva às celebrações dos vivos. Eusébio merecia menos a celebração enquanto era vivo? Que coisa estranha. E que coisa tão bizarra que, em nome da celebração do morto, apareça quem se incomode por se querer falar de quem quis celebrar o vivo sem esperar que ele morresse. Claro, a celebração dos mortos dá sempre mais lucro, ou mais juro, ou lá o que é. Felizmente, Eusébio não era Prémio Nobel da Literatura, causando assim menos engulhos aos que têm óculos especiais (ideológicos) para medir o calibre da celebridade... (...)"

(Porfírio Silva)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

Repensar

Através do João, cheguei a esta entrevista que, apesar de já ter algum tempo, irá manter-se actual por muitas décadas. Sei que custa, numa altura em que as futilidades dominam o debate público e as redes sociais, gastar tempo a pensar e a reflectir em temas como este, mas aqui fica o link para quem esteja disponível e interessado em exercer o intelecto para pensar no Mundo e na sociedade em que vivemos. Não concordo com tudo o que este filósofo diz, mas dão que pensar as ideias ali expostas.

domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Um governo inconstitucional

O sempre amigo semanário Sol publicou esta semana uma peça online, em que insinuava que as decisões do Tribunal Constitucional, chumbando as medidas do governo, eram tomadas pelos juízes escolhidos pelo PS, enquanto os juízes escolhidos pelo PSD e pelo CDS aprovavam as medidas. Ora, a decisão de ontem, aprovada por unanimidade, responde, com uma bofetada de luva branca, ao frete do jornaleco do pequeno grande arquitecto Saraiva: até os juízes nomeados pelos partidos da actual maioria chumbaram a maioria. Pode dizer-se que não subsistem dúvidas jurídicas sobre esta proposta. Só mesmo um governo inconstitucional e fora-da-lei é que poderia imaginar sequer a correcção legal desta medida...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Caso de polícia

 
Do que se vai descobrindo sobre a Tecnoforma, conclui-se que estamos perante um caso de polícia. O desvio de dinheiros públicos é crime.
Sócrates teve o Freeport. Apesar da forma canalha como foi criado o processo, nunca saberemos se houve ou não marosca na aprovação do projecto. Passos Coelho teve a Tecnoforma. E a Tecnoforma II. Com Miguel Relvas, Aguiar Branco, Agostinho Branquinho e mais uns quantos, todos ligados ao PSD. E mais uma ONG. Várias empresas e várias situações ilegais.
No primeiro caso, estamos a falar de um só acto. No segundo estamos a falar de vários actos, vários crimes. Juridicamente, existe uma diferença. Praticar um furto é diferente de praticar vários furtos.
Por isso, não deixa de ser engraçado que aqueles que criticaram Sócrates - e por vezes bem - de aumentar a dívida pública e ter recebido dinheiro pelo Freeport sejam os mesmos que aumentam a dívida ainda mais (e mais depressa) e estiveram envolvidos em projectos igualmente (ou ainda mais) ruinosos para o erário público.

(imagem)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Liberdade parcial não é liberdade

Eis o mais recente artigo de opinião para o Local, sobre Mandela e a sua influência na Justiça mundial.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A prova

Já tinha demonstrado que existe alternativa à política de austeridade, ao negar o pagamento imediato das dívidas (adiando-as, permitindo crescimento económico e recuperação de empresas e de famílias) e agora a Islândia volta a provar que existe uma política económica alternativa, que resulta.
É pena é os interesses de alguns grupos económicos sobreporem-se aos interesses dos povos e das pessoas, tomando conta dos governos europeus e da Comissão Europeia.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Verdade e ficção (2)

No meu penúltimo artigo de opinião para o Local tinha escrito sobre a relação da Comunicação Social com a Justiça. Esta semana volto ao tema, após o Bastonário Marinho Pinto ter no JN (aqui e aqui) proposto a criação do crime de corrupção jornalística.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Bom som

Seria vergonhoso, se esta gente tivesse vergonha

Cortam nas pensões de sobrevivência, cortam nos salários, aumentam a taxa para pagar a RTP (longe vai o ano de 2010, em que este mesmo PSD criticava o aumento desta taxa levado a cabo pelo anterior governo) e adoptam outras medidas contra as pessoas. Por outro lado, baixam os impostos para as empresas (incluindo as que lucram milhões e milhões por ano, sem qualquer contrapartida - como a contratação de novos trabalhadores, por exemplo). Se vergonha fosse algo que esta gente tivesse, ou soubesse sequer o que é, isto não aconteceria. Em Espanha, que também é governada por um partido da "direita", isto não sucede. O governo recusou os cortes salariais propostos pelo FMI, para bem da Economia espanhola. Lá não há esta gente miserável...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Formação democrática



É o meu artigo de opinião desta semana para o Local, sobre o caso Rui Machete e as repercussões jurídicas das suas polémicas declarações ao Jornal de Angola.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Destruir e destruir

É a única coisa que o governo sabe fazer. Destruir tudo o que (ainda) funciona em Portugal. Quanto mais tempo eles lá estiverem, mais teremos de reconstruir e maiores serão as ruínas...

Pedro e o Lobo

Apesar de auferirem um salário bem acima da média nacional e de ainda terem regalias exclusivas, há anos que os maquinistas do Metropolitano de Lisboa fazem greve de tempos em tempos. Protestavam contra o corte de algumas dessas regalias (muitas delas injustificadas, diga-se) e um pouco contra tudo e contra nada. As pessoas fartaram-se das greves, com prejuízos e transtornos óbvios. Agora que não cortam regalias mas sim direitos fundamentais e toda a razão lhes assiste para fazerem todas as greves e mais alguma, as pessoas já não acreditam na bondade das greves. Hoje há uma e de hoje a uma semana irá haver outra. Para quê? Há anos que fazem greves e quase nunca conseguem o que pretendem e já se percebeu que, para este governo, não contam para nada, ao contrário dos grupos empresariais amigos. Apenas para dar mais dores de cabeça a quem tenta sobreviver no actual estado do País. Estas greves são, tal como as outras, inconsequentes e apenas ganham inimigos do lado de onde deveriam captar simpatizantes da sua causa. Querem chamar a atenção para o que estão a fazer (um pouco às escondidas, aliás) aos transportes públicos? Façam greve sem prazo, façam até o governo ceder, leva um dia, uma semana, um mês ou um ano. Aí, sim, causam mossa nas contas da empresa (e na carteira também, mas se querem manter a carteira com dinheiro, há que arriscar) e acordam o País e as pessoas para o problema. Até terem coragem para tal, não contarão com a minha simpatia para esta forma de luta. Isto, repito, de terem toda a razão e legitimidade.

domingo, 6 de outubro de 2013

Separação de poderes

Num Estado de Direito democrático, a separação de poderes é imperativa e real. Por isso, sobre as declarações de Rui Machete (que a esta hora já não deveria exercer o cargo de ministro), faço minhas as seguintes palavras do Miguel Abrantes:
 
"Escutadas palavra por palavra, as declarações de Rui Machete à Rádio Nacional de Angola ainda são mais demolidoras. Encontrando-se num outro país, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros decidiu discorrer, com inesperado desembaraço, sobre uma investigação a cargo do Ministério Público português, fornecendo elementos que deveriam estar em segredo de justiça. Não satisfeito por atropelar o princípio da separação de poderes, Machete ainda garantiu que o Governo tinha pedido explicações à procuradora-geral da República pela actuação do Ministério Público. E a cereja em cima do bolo foi o pedido de perdão por o Estado português estar a investigar cidadãos de outro país por actos praticados em território nacional.

As autoridades portuguesas demoraram todo o dia de ontem até haver reacções. A procuradora-geral da República acabou por difundir um
comunicado, no qual é desmentido tudo o que havia sido dito por Manchete. Obrigado a reagir, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros emitiu também um comunicado, no qual sustenta que apenas fez uma interpretação de uma nota do DCIAP. Pior a emenda que o soneto: é que a nota do DCIAP, contrariamente ao que disse Machete, esclarecia que havia processos em curso.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros envergonhou a justiça portuguesa — de resto, perante a sintomática passividade do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, cujo presidente, entalado entre a defesa da autonomia do Ministério Público e a frutuosa cooperação com a ministra da Justiça, se limitou a
uma inócua declaração de circunstância — que, dada a gravidade da situação, também deveria encher de vergonha os sócios do sindicato.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros envergonhou igualmente o país ao pedir desculpa às autoridades angolanas por a justiça portuguesa funcionar.

O enxovalho a que o país foi sujeito por Rui Machete não passa para Passos Coelho de “
uma expressão infeliz”. Por isso, incumbiu o pardo secretário-geral do PSD, um tal Matos Rosa que não é sequer membro do Governo, de anunciar que se trata de um “assunto acabado”. E não estando o Presidente da República disposto a acabar com este manicómio em que se transformou o seu governo, só nos resta esperar que nos caia do céu um brief do Lomba."

sábado, 5 de outubro de 2013

O dia que comemora a República que em tempos fomos

Hoje é o 5 de Outubro, outrora um feriado em que comemorávamos (e festejávamos) a instauração da República. O actual governo, descontente e ressabiado com o 25 de Abri, a Democracia e os princípios republicanos (em que a "res", a coisa, é pública, de todos), nestes dois anos e meio tratou de despachar quase tudo o que era de todos nós para alguns amigos próximos, com os lucros das empresas pública...s, que eram para benefício de todos nós, a irem directamente para os bolsos desses amigos. Tudo com uma desculpa: a crise. Pois bem, a crise é mais grave agora, depois desta transferência de lucros e interesses do povo para os amigos (uma esmagadora minoria). Muita gente passa fome para um pequeno grupo de predadores egoístas e gananciosos saciarem um pouco o seu apetite por dinheiro e mais dinheiro.

Entretanto, pensam que somos todos estúpidos, com declarações que atestam que vivem noutro mundo e que olham para nós como a plebe ignorante e parva. Ontem, um iliterado chamado Pedro, na casa da Democracia, teve o desplante de dizer que os cortes das pensões não eram retroactivos pois não estavam a pedir o dinheiro de volta aos idosos! Se a estupidez e a lata pagassem imposto, só com esta declaração do nosso Primeiro-mentiroso metade da dívida ficava paga!

Enquanto o Primeiro-mentiroso mente no Parlamento, também outros mentirosos insistem em tentar enganar-nos, com mentiras e mais mentiras. É a mentirosa das Finanças, o mentiroso dos Negócios Estrangeiros (e dos negócios com os amigos do regime angolano), os mentirosos dos assessores que omitem nos seus currículos a passagem pelo BPN, o Vice Primeiro-mentiroso que nos diz, com cara de pau, que as medidas anunciadas esta semana não são austeridade (e eu sou o Pai Natal), enfim, um grupo de mentirosos e saudosos do antigo regime.

Sim, saudosos. Tentam acabar com o Tribunal Constitucional, tentaram aprovar uma alteração profunda à Constituição, insistem em aprovar diplomas legais que violam os mais básicos princípios em qualquer Democracia do Mundo, como o princípio de igualdade. Isto para além de destruir a nossa independência, dando todo o poder e controlo dos sectores estratégicos a grupos empresariais amigos (e não há almoços grátis, como veremos quando saírem do governo e arranjarem tachos generosos nestas empresas, para além de um dos partidos do governo ter em tempos depositado dinheiro proveniente de financiamento ilegal na sua conta).

Ontem, a Renascença publicava um conjunto de gráficos que demonstram que este grupo de mentirosos e aldrabões prepara um alívio fiscal em 2015, ano de eleições legislativas, e um novo agravamento em 2016, tudo combinado com o troika dos interesses. Para quê? Para enganar os tolos que por aí andam...

Diz o ditado popular que à primeira todos caiem, à segunda cai quem quer e à terceira só os tolos é que caiem. A quem já votou em Passos Coelho ou no Paulo "a minha palavra de honra é irrevogável" Portas, deixo esta pergunta: depois de terem votados neles uma vez, será que vão votar uma segunda?

Verdade e ficção



Eis o meu mais recente artigo de opinião para o Local, sobre a relação entre Justiça e Comunicação Social.