Recordo-me do período em que recebíamos 5 milhões de euros (1 milhão de contos na altura) por dia da UE para investirmos em infraestruturas. O betão cresceu, mas sobretudo nas vias rodoviárias. Muitas (auto) estradas foram construídas, mas, segundo um relatório da OCDE que não encontrei através do Google, 90% desse dinheiro não foi aplicado, não se sabendo bem para onde foi, mas todos desconfiamos em que bolsos aterraram. Escolas, hospitais, etc, só mais tarde foram construídas. Algumas. Poucas.
Recordo-me que, nesse período, a venda de Ferraris e outros automóveis topo de gama em Portugal disparou. Tal como cresceu brutalmente o número de condomínios fechados, de piscinas, de escolas "finas" (e caras), de uma série de serviços que antes estavam disponíveis apenas para meia-dúzia e passaram a ser acessíveis para umas quantas centenas que enriqueceram do dia para a noite, não se sabe bem como.
Recordo-me, também, do que os Bancos fizeram, por sede de lucro fácil e rápido e sei o que a maior parte deles continuam a fazer ainda hoje. De vez em quando lá recebo um telefonema de um deles para me vender crédito, sem me conhecerem ou saberem se tenho rendimentos para o pagar e apesar de já ter apresentado reclamação escrita e queixa-crime no DIAP de Lisboa por este comportamento.
Recordo-me dos submarinos, das festas, dos presentes, dos cartões de crédito e dos almoços por eles pagos, dos fatos de tecido italiano de qualidade pagos pelas subvenções estatais, dos subsídios pagos mesmo quando deles (comprovadamente) não necessitem, das inúmeras regalias que são vistas como direitos adquiridos, quando não são fruto do trabalho e da produtividade.
Recordo-me daqueles que passam o horário de expediente a "sacar" músicas, filmes e séries e a gravá-los em cd's e dvd's, começando a trabalhar depois desse horário para cobrar horas extraordinárias e em que o fazem porque não são avaliados, graças às greves e às manifestações dos eternos sindicalistas que os representam.
Recordo-me daqueles que passam o dia a fazerem intervalos para o pequeno-almoço, para a bica e para o cigarro, passando mais tempo em intervalos do que a trabalhar. E dos que passam o dia no Facebook e no Messenger, na conversa, a ver fotos e a ver vídeos do Youtube. Ou a trocar batatas e legumes no Farmville. Que se queixam que ganham mal, mas pouco ou nada fazem para merecer o emprego e o salário. E dos que preferem não fazer nada, auferindo subsídios, em vez de trabalhar e depois queixam-se que o subsídio acaba e exigem mais e mais, como se tivessem apenas direitos e não deveres.
Recordo-me que aqueles que aparecem constantemente na televisão e nos jornais a comentar a crise e avançando com propostas que, segundo eles, resolverão o problema, já tiveram chances de a resolver mas cometeram os mesmos erros, foram igualmente responsáveis pelo buraco em que deixaram o País e não fizeram melhor do que os que lá estão. Recordo-me que são os mesmos que dão aulas nas escolas e faculdades e ensinam os alunos - futuros gestores, economistas e governantes - a cometerem os mesmos erros que eles.
Recordo-me que tivemos meio Mundo nas nossas mão e estoirámos com tudo. Que tivemos uma das maiores indústrias exportadoras do Mundo (calçado e vestuário) e que, como de costume, estoirámos, graças à má gestão e à ganância e à procura do lucro rápido.
Recordo-me de muito mais coisas, ao contrário da maioria que tem memória curta e esquece-se (alguns por conveniência). Toda a gente pergunta como é que saímos da actual situação. Eu pergunto: esta gente não é responsabilizada, questionada, confrontada, acusada?